Taxa Selic: manual do usuário (você também é!)

“A taxa básica de juros da economia segue em queda. Em fevereiro de 2019, pela 7ª vez consecutiva,  manteve-se a taxa Selic em 6,5% ao ano”.


Quando você lê essa notícia, o que entendeu e qual relação fez com as suas finanças? Sim, você tem tudo a ver com isso. Entenda como a Selic funciona e como ela interfere no seu bolso.

Os bancos e o governo

Os impostos são a principal fonte de receita do governo. Mas as despesas vão além da receita. Para equilibrar essa conta, o Tesouro Nacional emite títulos públicos. Quem compra? Os bancos. Esses títulos, que servirão de garantia de pagamento quando os bancos é que precisarem pedir empréstimos. Os títulos são registrados no Sistema Especial de Liquidação e de Custódia, para os íntimos, Selic.

Quando o banco fecha no vermelho

Os bancos são obrigados a manter uma porcentagem de seus depósitos no Banco Central. É a forma de o governo controlar a quantidade de dinheiro circulando. Durante um dia inteiro, os bancos movimentam muito dinheiro. Às vezes, sai mais do que entra (quem nunca?). Não raramente, a conta fecha com saldo insuficiente para o depósito mínimo no Banco Central, exigido por lei. E é a vez do banco pedir dinheiro emprestado: para outros bancos. É aí que entram os títulos adquiridos, como garantia do pagamento. E ele ocorre em curtíssimo prazo: 24 horas.

Selic Overnight

Não importa por que o nome é em inglês: o importante é entender de onde ela vem… Pedir dinheiro ao banco, mesmo que o pedido venha de um “colega” com a promessa de “te pago amanhã, sem falta”, e ainda com os títulos como garantia, não é como pedir ao pai: vai ter juros, sim. A média dessas taxas é a Selic Overnight, a taxa básica de juros efetivamente praticada. 

Selic Meta

A Selic Meta é a taxa da qual você ouve falar no noticiário. Como o nome (mais claro) diz, trata-se de uma meta definida pelos diretores do Banco Central membros do Comitê de Política Monetária, o Copom. Ao longo do dia, com a interferência do Banco Central — que coloca ou retira dinheiro de circulação —, a taxa Selic Over tende a se aproximar da meta.

Quem define

O Copom se reúne a cada 45 dias para definir a Selic, que é o principal instrumento do governo de controle da inflação no país (vamos explicar a seguir). O comitê analisa fatores como inflação, taxa de câmbio, importações e exportações, taxa de desemprego e a perspectiva de crescimento econômico. Com tudo isso na ponta do lápis, e o objetivo de equilibrar a economia do país, o Copom aumenta ou diminui a taxa Selic.

Selic Alta

Em um cenário de alta da inflação, aumentar a taxa Selic é uma arma do governo para desestimular o consumo. A taxa mais alta aumenta os juros do cartão de crédito, o custo dos empréstimos e cheques. O governo estimula o consumidor a adiar as compras até que os preços voltem a cair e a inflação seja controlada. A simulação de um empréstimo para a compra de um carro, por exemplo. Basta aumentar as taxas para o consumidor ver as prestações aumentarem e, talvez, decidir ficar com o carro velho por mais um tempo.

Selic Baixa


Em um cenário de inflação controlada e recessão, como o que vivemos hoje, a estratégia do governo é baixar a taxa Selic, estimular o consumo, a queda de juros e tornar o crédito mais acessível para que o consumidor volte a comprar. 

A Selic e os investimentos

A influência mais direta da Selic nos investimentos ocorre no Tesouro Selic, título pós-fixado do Tesouro Direto em que o investidor é remunerado a partir da Selic. Selic alta = Com ela em alta, a rentabilidade aumenta e o investimento fica mais atraente do que investir na Bolsa de Valores, os investimentos de renda variável. Quando a Selic cai, o rendimento dos títulos públicos diminuem e ficam menos atrativos.
Com a Selic baixa, além do Tesouro Selic render menos, outros investimentos de renda fixa, como o Certificado de Depósito Bancário (CDB), competem com a poupança pela atração do investidor. 

Poupança 

O investimento na poupança também está atrelado à Selic, que define o cálculo de rendimento da aplicação. Com a Selic igual ou menor a 8,5%, a poupança rende 70% da Selic mais a Taxa Referencial (também instrumento de controle da inflação, calculada pelo Banco Central). Quando a Selic está acima de 8,5%, a poupança rende 0,5% ao mês mais a mesma taxa referencial.

Um porém

Se você acompanhou até aqui, pode pensar na seguinte lógica: se a Selic Meta é a taxa básica de juros, então posso tê-la como “meta” quando for pedir dinheiro ao banco, certo? Errado. Prepare-se para uma taxa maior. Porque, embora tenha a Selic como base de cálculo para conceder empréstimos, o banco a considera “o mínimo”. Sobre ela, para calcular os juros que você vai pagar, o banco acrescenta os seus  custo (agências, funcionários, impostos etc), o risco de inadimplência e o lucro (porque ele não é o seu pai, lembra?).
É por isso que o juro do cartão de crédito ou do cheque especial é bem maior do que a Selic.

Outro porém

Até aqui, vimos como a Selic interfere no seu bolso. Pelo menos, na teoria. E isso serve, sim, como base para você avançar no planejamento das suas finanças. (Veja mais como se manter no controle aqui usar link para texto sobre controle de finanças, quando ele entrar)
No entanto, cabe uma avaliação do contexto atual da economia, conforme a notícia que citamos no início desse texto. A Selic mantém-se estável desde março do ano passado e taxa não é mais determinante na concessão de crédito. Outro índice tem falado mais alto no cálculo do banco para definir os juros sobre o crédito: conforme o Serviço de Proteção ao Crédito, 60 milhões de brasileiros estão endividados. E os riscos do banco de levar “calotes” têm feito os bancos manter elevadas as taxas de empréstimos e financiamentos.

Endividado? Veja 7 dicas para sair dessa. 

Deixe uma resposta