Os efeitos da COVID-19 no comércio caxiense

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O desempenho do comércio caxiense em janeiro de 2020 mostrou um crescimento de 0,18% quando comparado com o mesmo período do ano passado (janeiro de 2019). Porém, na comparação com o mês anterior (dezembro de 2019) houve uma queda de -10,51%. Resultado já esperado para o mês, pois janeiro sempre foi desafiador para o comércio por conta das férias e da movimentação da população para o litoral.

Entretanto, o ano de 2020 começou com a promessa de recuperação. Até o mais pessimista dos especialistas apontava crescimento acima de 2% para o PIB brasileiro e na região essa expectativa era para um número ainda maior. Mas o clima de tensão começou logo após a virada de ano com as notícias referentes ao novo coronavírus (COVID-19) que vinham da China. Ainda era muito cedo para prever o que estava por vir, mas o receio de algo grave se anunciava à medida em que os números de casos confirmados de pessoas infectadas e de mortes aumentavam.

Até aquele momento, éramos meros espectadores atentos ao que acontecia na Ásia. Conforme o vírus se espalhava pelo continente, pela Europa e pela América do Norte, o sinal de alerta foi aumentando. Aqui no Brasil o primeiro caso foi detectado em 25 de fevereiro no estado de São Paulo. Em 10 de março, a Organização Mundial da Saúde (OMS) qualificou a COVID-19 como pandemia. Neste momento, havia 118 mil casos em 114 países e 4.291 pessoas já tinham perdido suas vidas por causa da doença. No Brasil já estávamos com 34 casos confirmados, sendo um deles em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Caxias do Sul teve seu primeiro paciente positivo no dia seguinte, 11 de março.

Enquanto a atenção de todos estava voltada para as definições das estratégias necessárias a contenção da pandemia e da propagação do coronavírus, os primeiros impactos na economia começaram a ser percebidos. O setor de viagens e turismo foi o primeiro prejudicado. Mas, logo depois, as restrições de circulação começaram a forçar indústrias, comércio e serviços a interromperem suas atividades.

Para entender o contexto do que está acontecendo, a CDL de Caxias do Sul, através do Núcleo de Informação ao Mercado, apresenta alguns dados e fatos que podem ser percebidos no mundo, no Brasil, no Rio Grande do Sul e, por fim, no município.

Impactos do coronavírus no varejo mundial

Um estudo feito pelo Google com dados da Goldman Sachs e JP Morgan mostram a análise do mercado financeiro sobre o momento do varejo, apresentando o seguinte cenário:

Impacto macro:

  • Câmbio mais alto: câmbio mais alto resultará em aumento do custo dos produtos finalizados ou dos materiais para sua produção;
  • PIB menor: PIB menor representa menos consumo e menos produção;
  • Aversão a risco: de uma forma geral, o mercado será mais conservador e não estará disposto a investir em coisas novas e diferentes daquilo que se tem grau de certeza de produzir resultados;
  • Redução do crédito: as empresas estarão menos dispostas a oferecer crédito para seus clientes como resultado do aumento do risco de inadimplência e falência que teremos no período;

Quarentena e Isolamento:

  • Aumento do online: com a dificuldade de sair do isolamento, fazer as compras de produtos e serviços tendem a aumentar significativamente neste período;
  • Redução de circulação em shopping centers: shoppings e centros comerciais fechados para conter aglomerações ou ainda medo das pessoas circularem em ambientes fechados ocupados por uma grande quantidade de indivíduos;
  • Disrupção da cadeia de suprimentos: afeta mais duramente os setores de moda e eletro por importarem mais seus produtos;
  • Estoques: o varejo precisa trabalhar com estoques baixos como forma de valorizar o espaço de loja para venda. Sem estoques, com câmbio alto e com disrupção da cadeia de suprimentos, logo as empresas ficarão sem produtos para vender.

Os dados da Kantar Insights mostram com mais detalhes o impacto no comportamento das pessoas durante o período de quarentena e após o isolamento. Os gráficos a seguir evidenciam o percentual de clientes dispostos a consumir mais, os que declararam que irão cancelar ou reduzir o consumo, bem como as estatísticas da população que não alterará o padrão de consumo.

Durante o período de isolamento

Setores que sofrerão redução de consumo:

Setores que sofrerão aumento de consumo:

Setores que não serão impactados:

Tabela 1 – Kantar – Measuring the impact of the coronavírus on China’s consumption – 13/02/2020

Quando analisamos os setores impactados durante o isolamento social, percebemos claramente que os mais prejudicados serão, respectivamente, os serviços que trabalham com o contato humano, os menos essenciais e os de bens duráveis. A mudança no comportamento fica evidente a medida que as pessoas trocam a experiência de jantar em um restaurante pelo delivery, entretenimento fora de casa pelo streaming e a academia por suplementos nutricionais. Dados do Google Trends mostram que as buscas pelo termo coronavírus no mundo cresceu mais de dez vezes do mês de fevereiro até agora e o mapa ao lado deixa bem claro que a atenção do mundo todo está voltada para esta pandemia. No Brasil, entre as principais perguntas sobre o coronavírus, estão:

• Como surgiu o coronavírus?
• O que é o coronavírus?
• De onde veio o coronavírus?
• Como começou o coronavírus?
• Quando surgiu o coronavírus?

Mapa Google Trends – Buscas por coronavírus no mundo

Após o período de isolamento

Setores que sofrerão redução de consumo:

Setores que sofrerão aumento de consumo:

Setores que não serão impactados:

Fonte: Kantar – Measuring the impact of the coronavírus on China’s consumption – 13/02/2020

Impactos do coronavírus no comércio nacional

Com a confirmação do primeiro caso no Brasil em 25 de fevereiro e com o avanço rápido da pandemia pelos estados, várias medidas de contenção e isolamento social passaram a ser adotadas pelos governos federal, estaduais e municipais. Em São Paulo, capital econômica do país, as restrições ao funcionamento do comércio começaram no dia 23 de março. Porém, a redução do fluxo de pessoas e as mudanças de comportamento provocadas pela COVID-19 já estavam impactando o consumo e o movimento das lojas. Pesquisa realizada pela Kantar sobre as atitudes e o comportamento dos brasileiros no enfrentamento da pandemia apontou que 77% das pessoas estão muito preocupadas com o novo coronavírus. Outro relatório que demonstra esta mudança é um estudo publicado pela Google, em que colocava o Brasil em 38° lugar na ferramenta de buscas sobre o tema (dados do dia 16 de março). No dia 28 de março, o Brasil já ocupava a 22º posição neste ranking.

Comportamento do consumidor

Entre as preocupações

Entre as principais atitudes

Atitudes consideradas

Fonte: Kantar – Consumer Thermometer – Entendendo as escolhas dos consumidores em tempos de incertezas – 1ª Edição 19/03/2020

Como pode ser observado nos dados acima, neste momento, o consumidor está concentrado na proteção das pessoas ao seu redor, sejam as crianças da família, os mais velhos e as outras pessoas de uma forma geral. O isolamento social entrou para a lista de atitudes das pessoas que agora buscam produtos mais saudáveis, estoques frente ao imprevisto e remédios para tentar combater o desconhecido.

Um estudo feito pela Confederação Nacional dos Dirigentes Lojistas (CDNL) e pelo SPC Brasil buscou quantificar o tamanho do impacto financeiro que teríamos frente à pandemia de coronavírus no país. Considerando que tudo volte ao normal em maio deste ano, o varejo brasileiro deve perder, aproximadamente, R$ 100 bilhões. E este movimento de prejuízos financeiros já pode ser percebido.

De acordo com relatório publicado pela administradora de cartões de Elo, o varejo já apresenta variação de faturamento. No dia 23 de março, as despesas com cartões de crédito caíram 49% e o de débito 45% a menos, em comparação com a média diária de duas a oito semanas anteriores (05/01 a 22/02). No débito, o segmento mais afetado foi o de vestuário, com queda de 91% no volume das vendas. Na sequência, estacionamentos (-86%), turismo (-78%), loja de departamentos (-75%), bares e restaurantes (-69%) e construção (-46%).

Variação de faturamento total no dia vs. dia médio1 – Brasil – débito?

Variação de faturamento total no dia vs. dia médio – Brasil – crédito

Variação de faturamento total no dia vs. dia médio – Brasil e-commerce – crédito

Fonte: elo – Impacto do COVID-19 – 24/03/2020 | Média dia a dia das semanas 2 a 8 de 2020 (dia 05/jan a 22/fev)

Os números das lojas físicas apresentados acima demonstram uma clara queda a partir de 13 de março, que se acentua a partir do dia 18 e que atinge seu ápice em 23 de março, quando se deram as medidas restritivas mais rígidas, o que deve ter impactado ainda mais os resultados do setor. Tendência seguida pelo e-commerce, mas em grau ligeiramente menor. Os únicos segmentos que conseguiram crescimento neste período foram Supermercados (20%) e Drogarias e Farmácias (15%).

No Rio Grande do Sul este comportamento começou a ser percebido a partir do dia 23 de março, onde foi possível observar uma queda abrupta na quantidade de NFCe emitidas no Estado:

Fonte: SEFAZ RS – Receita Dados (atualizado em 27/03/2020)

Além da queda a partir do 23 de março, que se mantém até hoje, foi possível observar também um aumento no valor das notas na semana que antecedeu o período de isolamento. Comportamento este que pode ser associado a corrida das pessoas aos mercados e farmácias na intenção de estocar alimentos, remédios e itens de proteção ao coronavírus, como álcool em gel e máscaras.

Impactos do coronavírus no comércio caxiense

Trazendo a realidade imposta pelo coronavírus para Caxias do Sul, já são perceptíveis os efeitos não só da propagação da doença, mas, principalmente, a mudança no comportamento das pessoas. Os resultados que percebemos na cidade são parecidos ao que identificamos em outras partes no mundo, no Brasil e no Rio Grande do Sul. Uma corrida aos mercados, que agora se veem obrigados a limitar o fluxo em suas lojas, as farmácias e, no oposto disso, o esvaziamento das ruas, shoppings e centros comerciais. Medidas necessárias para conter esta doença ainda desconhecida e que põe em risco todo o sistema de saúde do município, que é referência para várias cidades da região.

Mas não tem como deixar de pensar na situação econômica neste período tão sombrio da história. Segundo um estudo do Sebrae de 2018, Caxias do Sul contava com 9.927 empresas ligadas ao comércio, entre micro, pequenas, médias e grandes. E estes empreendimentos participam com de 28% do PIB da cidade.

Pela importância que este setor tem para Caxias do Sul, já podemos entender que o impacto das restrições ao comércio do município será forte e que demorará muito tempo para ser recuperado. Pelas nossas estimativas, o comércio caxiense está deixando de faturar R$ 3,6 milhões por dia, o que representa uma queda de 58%. Caso este cenário persista até o fim de março e durante todo o mês de abril, o impacto negativo pode chegar a R$ 144 milhões. Um número considerável e que não será recuperado no curto prazo, já que a venda não realizada é perdida, não retornando. Além dessa perda, o impacto se desdobra sobre a força de trabalho, com a demissão de trabalhadores e a interrupção da renda de muitas famílias. O cenário local é, no mínimo, preocupante.

Considerando que setor de comércio e serviços foi um dos mais castigados pela crise econômica que passamos desde 2014 e que agora estava conseguindo pegar tração para crescer de forma contínua e sustentável, esta pandemia apresenta-se como um duro golpe ao varejo. O cenário é desolador, principalmente quando refletimos sobre o número de empresas que terão capacidade para manter-se abertas até o final desta crise e, ainda, aquelas que conseguirem sobreviver sem cortes profundos no seu quadro de pessoal.

Prof. Mosár Leandro Ness – Assessor de Economia e Estatística – CDL Caxias do Sul

Núcleo de Informações de Mercado – CDL Caxias do Sul

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